Não quis

Ziz é uma russa belíssima
De cabelos dourados com tons de prata
Que lhe caem em tranças sobre os ombros
Mas de olhos azuis gelados como seu próprio coração.
Nua armadilha armada
Amada armadilha nua
Oferece seus seios para quem quiser matar a sede carnal
Ou se matar.
Maligna alegria disfarçada em boa intenção
Naquele dia ela lambeu os lábios me disse: a vida é doce!
Imã irmã da maçã
Eu nunca quis encontrar seus vínculos.
E lutando contra seu magnetismo,
Sua nódoa.
Estive preso e me desprendi.
Sem marca.
Quebrei os meus retrovisores
Contudo bebi do meu veneno
Com o coração em sobre saltos a cada som de campainha
Andei dândi de lá pra cá

E foi assim que Ziz quis
cortar minhas sete tranças, vazar meus olhos,
Mas não descobriu meu coração
Nem dormi em seus joelhos

Deus, eu não sei o que estão tramando contra mim
Talvez eu nem seja de todo inocente
Mas eu confio no Senhor
Por isso temer não quis

Atrás das malhadas

Meus passos n’água
Submerso desespero
De saber que há um denso oceano de palavras
E de que eu perdido entre elas
Não fui achado

Meus passos n’água
Foram demasiadamente curtos
Submerso desespero
De quem em meio a náufragos
Precisa ser achado

Encontre-me, por favor,
Na esquina de sua casa
Na repetição de suas teclas
Na poética vaga entre as palavras
Encontre-me
www por aí em qualquer lugar

Meus passos submersos
Em lágrimas
Úmida dor dos abandonados
Dos desaparecidos
Dos esquecidos
Encontre-me, por favor,
Onde quer que se possa me achar

Não tenho rastos
Mas eu estive aí
E só você não viu.

Verdade Velada

Eu vi a verdade velada nas ruas
Por isso corri na contra mão.
O desespero engana o coração
Com um perigo iminente,
Muitas vezes uma fantasia
Uma farsa pós moderna,
Um peso supérfluo e sem sentido que se carrega dentro,
Como as coisas sem sentido
Sentidas na alma.

Mas ainda hoje eu perguntei para o lis
Perdido em qualquer jardim:
Onde foi que as lágrimas de minhas angustias
Regaram e alvejaram suas pétalas?
E quando foi que chorei sem motivo
A dor dos incompreendidos?

Ignorei as palavras torpes
Com as quais me acusaram sem motivo
Deve-se olhar para frente, amigo.
E acompanhar a melodia que alegrará
Nossos corações niilistas.
Ainda ontem
Eu e Nietzsche brigamos muito
Eu o chamei de prolixo e sofista
Eu o chamei de porco chauvinista
Pois eu ainda creio

E se deve olhar para frente, amigo
Sempre

Fim de Tarde

Um outro caminho, santo
sempre
acima das nuvens, acima da apatia com que me maltratam.
A noite nunca deixa de vir,
não deixa,
e eu não deixo.
Não deixo.
Fim de tarde, o sentido perdido de minha aflição
Meu peso na alma.

Da vida quero um favo de mel
Móveis imóveis
E outras coisas efêmeras
Da vida quero um raio de sol
Quero entre giletes e escovas de dente
Um reflexo mais feliz no espelho.

Não seguirei meu coração
Não quero chegar tarde
Apesar das voltas que dei pela cidade
Pelas ruas, vielas
E passarelas.

Eu nunca fui fashion
Baby, oh não.

desejo de ser importante

Em vão tentei carregar de rancores a poesia
Meus gritantes rancores taciturnos
Para ferir meus iguais feridos
Mas a poesia não soa assim
Ela está aquém dos defeitos humanos,
Da mecânica alienada de nossas cidades
Sublime e flutuante, a poesia observa a vida
E detém seu canto no que há de mais tocante e profundo.
Por isso lavei meu coração
Vendo que a poesia apreciava mais a mim que eu a ela
Pois enquanto eu perdido na multidão
Ela me encontrou, e ela era como um sorriso que se abre
Deu-me um abraço
Assim satisfez meu íntimo desejo de ser grande

Entendi que todos merecem singular atenção
Pois se não se sentirem importantes
Definharão famintos por isto
Na ânsia de seus corações solitários.

ferida aberta

Minha ferida aberta
meus pontos se romperam
meu sangue escorreu pelos meus passos
passos vermelhos
sobre o espaço branco
do nada diante de mim.
Meu ser escarlata
vermelho vexame
meu ser rubro de vergonha.
Meu Deus!
Perdoa minha falta de fé
minha falta de branco.
Minha ferida está aberta
e longe da cura.
o Teu altar não sei mais onde fica
e o sentido ou estesia da vida
não sei mais onde ficam.
Minha ferida ainda aberta:
eu não os entreguei, meus pontos é que se romperam

Mundo humano

A injustiça vai bem, obrigado!
Mas meu peito sofre com palpitações
Nessa resignação ensopada por meu pranto.
Odiei minha condição de desprezado.
Um filho bastardo da vida.
Poeta.
Fui um desvio de regra
Não me amaram, em raras exceções, os que me conheceram
Pela dificuldade humana de tirar os olhos do próprio umbigo.
Me viraram as costas.
Ódio e mágoa são sentimentos humanos
E não fui menos humano do que eles

eu que me fartei de tantas coisas

eu que me fartei de tantas coisas
estou farto de carboidratos
farto da magoa pela insensibilidade alheia
a maldade deles contra minha respiração resignada
farto da tristeza pelo ódio mortal dos que me odeiam com sangue nos olhos
por isso decidi me amar mais
verbo esse que carrega em si a responsabilidade do sacrifício
que é a chave, eu sei
resposta simples a questionamentos vários
amar é desejo de mudar o mundo (e precisa ser mudado)
em benefício do ser amado
e mesmo sem podê-lo ter coragem e iniciativa para fazê-lo

amar é, aos olhos mádidos, uma sutileza simples e fina
cabe em qualquer lugar
e nunca se farta

SENTI(n)DO

Sem sentido, parado, ocioso, ridículo
E mais um dia passou em branco, perdido em pesquisas inúteis.
Quantos dias assim tolera uma vida?
A evidência mais concreta de não existir é levar uma vida pequena.
Um grande feito ou abraçar uma grande causa é o que nos faz grandes.
Contudo, tudo que fiz de nobre na vida foi te amar além da conta
Por amor de mim talvez - sempre se quer o melhor pra si -
E ninguém quer ser sozinho.
A única coisa que marcou o dia de hoje foi que, perdido, senti muito a sua falta.
Sabes bem, que eu nunca te dei as costas ou te neguei meus braços
Nunca fui bom em explicar a complexidade das coisas.
Nem soube numa noite dessas, citar uma declaração de amor,
Mas na vida usei palavras sem nexo para falar do amor
E talvez eu tenha acertado em cheio...

realidade

Acordei com uma nova disposição em meus pulmões
Aspirando uma nova vida,
Mais clara, mais pura e assim mais feliz
O sol já havia saído quando vinha eu tranquilamente pela via
Mas como é de praxe na vida e por conveniência das coisas,
A adversidade me assaltou na esquina com um súbito acidente de carro,
Mais uma vez as circunstâncias tentaram frustrar meus ideais de uma vida plácida e cintilante,
Coisa tão difícil em tão turbulentos dias.
Apesar da batida não fui abatido.
E por mais negra e ácida que seja a realidade
Por mais treva que se estenda sobre o dia
Eu sei que elas se dissipam diante de meu coruscante desejo pela vida

sólida solidão

Meu coração ainda bate
Cartão
Funcionário público dos sentimentos
Protocolando ânsias em fichários
E organizando memorandos.

Meu coração ainda bate
De frente
No sinal vermelho da ilusão
No desorganizado tráfego pedestre das multidões.

Meu coração ainda bate
Antes de entrar
Fineza distraída e cotidiana
Dada aos estranhos de diálogos formalizados.

Meu coração ainda bate
Na mesma tecla
Ao acessar nossa diária e impessoal fragilidade on line.

E apesar de nossa distância virtual
Meus olhos frios sobre a tela
...Meu coração ainda bate.