a vida é um soco no estomago

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Temer o que a noite traz para você quando está dormindo
acordar e não conseguir se levantar com o peso da noite nos ombros
voltar para casa com a dor do soco que o dia deu em você
nenhum desses dias me polpou
a vida é um soco no estomago
mas a morte dos meus é quem bate mais forte

minha dor é inquilina do vazio
Meu desapontamento paira nos meus olhos e ninguém me vê
a frustração é um espírito assombrando sua casa abandonada
no espaço reservado entre as lágrimas
vagueando pelos aposentos ocos no seu peito
arrastando correntes pesadas pelos quartos da sua alma

já a alegria, me esqueci do rosto que tinha
mas descobri que ela é como uma criança frágil e ingenua
que será estraçalhada pela vida
uma criança perdida nos escombros da cidade sitiada
que vai se transformando e se perdendo à medida que amadurece
diluindo nas águas do tempo.
sim, presenciei isso mil vezes

minha alegria perdida
era um cartaz num poste, uma foto no mural dos filhos desaparecidos
minha alegria perdida com aqueles que perdi
a morte é quem bate mais forte
minha alegria perdida com aqueles que não pude receber, 
os que não me foram autorizados receber
aos meus que a mim foram negados,
e os que sem perceber tive que renunciar

a morte bate mais forte que trovões
mais forte que a queda dágua de sufocantes toneladas sobre suas costas
a morte bate mais forte que seu coração...
sim,
confesso que o nocaute da morte me deixou sequelas
hematomas escuros que escondo atrás dos óculos escuros
meu sorriso vermelho de sangue
olheiras carregadas de negro,
negro desespero
dos órfãos, das viúvas e dos refugiados
eu era uma pequena criança silenciosa perdida no bombardeio
olhos brancos e paralisados de choque
coberta de pó, fumaça e lágrimas

O nocaute da morte foi como Hiroshima e Nangassaque no meu peito.




***

Espera

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A Vida veio aqui
jogar na minha cara
que eu não sou suficiente,
me ofendeu com palavras,
me deu um tapa no rosto.

O Mundo também veio aqui pedir satisfações
metido a valentão
me empurrou no chão,
me ameaçou e me extorquiu.

Eu era um colibri desarmado,
um pardal na tempestade
com o interior partido...
e pânico do futuro

Enquanto isso a Esperança que assistia a tudo horrorizada,
desconversou comigo, sorriu nervosa e constrangida,
se despediu com um beijo

ainda hoje estou aqui olhando-me envelhecer no espelho do tempo
esperando ela voltar






...

Ofício

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Já bem cedo bato meu ponto cotidiano de fazer poemas
minha dor é material de consumo, 
entretenimento para as massas.
Esse é meu trabalho invisível sem importância.
Meu trabalho para sustentar futilidades humanas.
Meu trabalho de provocar o que não sentes, mas gostarias de sentir.
Meu trabalho escravo,
minha pele é escura tal qual meu coração,
sou imigrante,
sou forasteiro.

Por isso minhas lágrimas são mais fortes que minha esperança
Negras lágrimas que vem do desrespeito, do abandono, do preconceito

E não se importas se o chão que pisas sou eu

Meu povo não tem pão 
Mas terá circo...
poesia


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Fiasco

As marquises onde me abandonaste
no dia que fostes embora
não me protegerão da artilharia pesada
todos nessa cidade estão armados de violência até os dentes.
Não há como se esconder na cidade grande
Da dureza de uma vida seca não há como fugir
O sertão dos Gerais está em toda parte
O sertão é sem lugar, é dentro, e é do tamanho do mundo

The drough is coming!

Eu também fui exilado
eu também não dei certo
não me trouxeram para perto
eu também não fiz sucesso
eu não sou especial
sempre estive incerto

Eu também sou um refugiado,
eu também fui abandonado,
eu também vim do norte,
eu também sou negro
sou órfão e viúva
sou favelado

sou pobre, porém não sou pequeno,

carrego meu infinito, profundo e denso,
múltiplo

Sou apenas ignorado
mas não pobre coitado.

O melhor de nós

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O melhor de nós está oculto?
O melhor de nós precisa mesmo ser procurado?
O melhor de nós não está na superfície, nem mesmo no raso?
Mas está mesmo é no profundo, o melhor de nós?
Como eu poderia reconhecer?
Em um dia comum, reparando um pouco, não dá para ver?

Então como saberei que existe o melhor de nós?



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Indolência ou Ideologia

...
ser concessivo 
a ponto de deixá-los morrer
ser comedido
a ponto de deixá-los morrer
estar apenas fazendo meu trabalho
e deixá-los morrer

A Miséria e Fome
A Violência e Ódio
O Inferno

quem chora?
quem sofre?
quem perdeu a esperança?
quem se importa com quem?

seguir o curso deste mundo
Acomodado e indiferente


Ou ser morto por não querer deixá-los morrer







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um cego sempre acorda no escuro

...
a ferida 
no meu peito está aberta ainda
e minha vergonha arde ainda

um cego sempre acorda no escuro
e não precisará abrir os olhos ao se levantar

assim tenho andado
meu coração tardando em amanhecer
para viver sei apenas sentir
essa é minha sina e meu pão de lágrimas

não sei pensar, sei apenas sofrer

meu peito ainda nu
remoendo minha desventura
não consigo enxergar a luz do dia

porém a luz está lá
o brilho dos seus olhos
o clarão do seu sorriso
meu quinhão
meu sonho
meu consolo

e mesmo diante de mim não consigo ver

vem romper meus obstáculos, as barreiras que criei na minha dor
abra uma janela no meu escuro
por favor não tenha medo
sou inofensivo

meu semblante fechado é um pedido de socorro 

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