Ofício

.



Já bem cedo bato meu ponto cotidiano de fazer poemas
minha dor é material de consumo, 
entretenimento para as massas.
Esse é meu trabalho invisível sem importância.
Meu trabalho para sustentar futilidades humanas.
Meu trabalho de provocar o que não sentes, mas gostarias de sentir.
Meu trabalho escravo,
minha pele é escura tal qual meu coração,
sou imigrante,
sou forasteiro.

Por isso minhas lágrimas são mais fortes que minha esperança
Negras lágrimas que vem do desrespeito, do abandono, do preconceito

E não se importas se o chão que pisas sou eu

Meu povo não tem pão 
Mas terá circo...
poesia


.

Fiasco

As marquises onde me abandonaste
no dia que fostes embora
não me protegerão da artilharia pesada
todos nessa cidade estão armados de violência até os dentes.
Não há como se esconder na cidade grande
Da dureza de uma vida seca não há como fugir
O sertão dos Gerais está em toda parte
O sertão é sem lugar, é dentro, e é do tamanho do mundo

The drough is coming!

Eu também fui exilado
eu também não dei certo
não me trouxeram para perto
eu também não fiz sucesso
eu não sou especial
sempre estive incerto

Eu também sou um refugiado,
eu também fui abandonado,
eu também vim do norte,
eu também sou negro
sou órfão e viúva
sou favelado

sou pobre, porém não sou pequeno,

carrego meu infinito, profundo e denso,
múltiplo

Sou apenas ignorado
mas não pobre coitado.

O melhor de nós

.


O melhor de nós está oculto?
O melhor de nós precisa mesmo ser procurado?
O melhor de nós não está na superfície, nem mesmo no raso?
Mas está mesmo é no profundo, o melhor de nós?
Como eu poderia reconhecer?
Em um dia comum, reparando um pouco, não dá para ver?

Então como saberei que existe o melhor de nós?



.